"...A minha graça de basta." 2 Cor. 12:9
Todo aquele que já teve contato com um "crente" ouviu alguma coisa sobre a graça.
Ao que me parece, diversos termos, quando são citados ou falados a todo o momento, acabam sendo banalizados ou barateados, perdendo seu encanto e sentido puro e real. Ao meu ver, a boca popular ou os torna normais demais ou os complica, inserindo-lhes pontos que não cabem ao seu devido processo.
Mas o tema graça hoje está tomando um outro rumo. Tudo indica que ele está voltando a ser compreendido de maneira leve e ao mesmo tempo valoroso.
O desafio é falar para culturas fortes que batem de frente: as culturas da vaidade e do tédio.
A origem etimológica de "vaidade" é "vão" e "vazio". Dessa forma se explica o porquê do vaidoso necessitar do olhar alheio sobre si. Alguns indícios de que vivemos numa cultura da vaidade são: a sociedade do espetáculo, onde tudo que se faz é preciso mostrar para todos; o culto a celebridade, que infelizmente rebaixa a autoridade e coloca a celebridade em um patamar mais elevado, mesmo sem merecimento; o culto aos vencedores, onde os vencedores não são aqueles que se deram bem, mas os que se deram melhor que os outros; o consumo, que faz com que o objeto tenha mais valor que o indivíduo; e por último a violência, em que muitos são admirados e consagrados por serem violentos ou os "donos do pedaço".
Nessa cultura a construção da personalidade ética é prejudicada.
Na cultura do tédio as propagandas nos mostram que todos são felizes, e que você também precisa ser feliz. Caso não seja, é uma patologia ou incompetência. Com isso, muitos buscam estímulos no álcool ou nas drogas, no consumo, na música, nas redes sociais, e etc.
O tédio citado se refere ao ambiente cultural em que vivemos, onde alguns não suportam mais, são isolados por estarem numa melancolia profunda e por fim acabam com a própria vida, pois a mesma perde o sentido.
A graça nos fala que estávamos numa condição mortal, direcionados para o abismo devido à entrada do pecado no mundo, mas Jesus decide doar a si mesmo para morrer no nosso lugar e nos reconciliar com o Pai e uns com os outros, sem merecermos.
É simples assim. É como se alguém pegasse todas as suas dívidas bancárias, inclusive as atrasadas, e realizasse o pagamento à vista, limpando seu nome, te dando crédito novamente.
Mas como entender isso quando a vaidade e o tédio dizem que para sermos reconhecidos precisamos mostrar, postar, ganhar likes, pois isso gera a felicidade genuína? E se não formos felizes assim, então temos algum problema... Essa é a mensagem pregada hoje em todas as mídias que você imaginar, e infelizmente até mesmo dentro de algumas igrejas.
Quando pensamos que precisamos fazer algo para que Deus nos aceite, quando criamos cotas de batismos a serem realizados no ano, quando achamos que nosso pecado é tão sujo a ponto de demorar meses para que Deus nos purifique e nesses meses precisaremos doar ofertas, ler livros e etc, a graça não nos alcançou. E isso não pelo fato de ela não ter força, mas sim por termos colocado obstáculos vaidosos e tediosos à frente. Comparamos o amor de Deus como um salário.
No contexto do texto bíblico citado no início, Paulo dizia que andava preocupado com suas fraquezas, mas Deus lhe deu a resposta citada e ainda complementou: "...porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza.".
Deus só pode trabalhar quando deixamos de lado nós mesmos.
Ao mesmo tempo a graça barata, que é subentendida por alguns, é uma perversão do foco do evangelho. Quando pensamos que, pelo fato de Deus ser tão bom a ponto de perdoar quem não merece, poderemos pecar a vontade, não fomos alcançados realmente por sua graça.
Ela é de graça, mas o preço que Jesus pagou foi infinitamente grande, a ponto de não sermos capazes de pagar sem sermos extintos.
O valor da graça está na cruz, e preço que devemos pagar para tê-la é apenas o abrir da porta do nosso coração para que o sacrifício feito nesta cruz faça sentido em nossa vida.
É difícil? Sem dúvidas, sim. Mas com certeza, não.
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